O executivo que não evangeliza dados perde o governo da própria empresa
*Por Victor Gonçalves
À medida que fluxos de dados passaram a descrever e antecipar o comportamento da operação, e que modelos algorítmicos começaram a sugerir prioridades antes mesmo que um executivo formulasse uma hipótese, algo mudou na estrutura de decisão corporativa: o centro de gravidade do poder deslocou-se do “intuir e decidir” para o “analisar, interpretar e justificar”.
É por isso que todo executivo deveria, inevitavelmente, tornar-se um evangelizador dos dados da corporação.No sentido mais estratégico de quem entende que dados são, hoje, a linguagem de governança da empresa. Negócios complexos operam por evidências. Ignorar a lógica de produção, transformação e interpretação desses dados é abdicar, voluntariamente, da capacidade de decidir com intenção.
A inteligência artificial introduziu opacidade. Modelos de recomendação priorizam clientes que o executivo não consegue identificar intuitivamente. Algoritmos de risco reconfiguram o comportamento do crédito em milissegundos. Sistemas de logística reorganizam a malha operacional sem que ninguém formule explicitamente as regras que orientam essas mudanças. Em poucas palavras: a empresa passou a executar decisões que não foram redigidas por pessoas, mas derivadas de padrões detectados em dados que nem todos compreendem.
Executivo que não lê dados perde, sem perceber, a distinção entre causa e efeito. Quando a operação responde a sinais que ele não domina, a sua autonomia se torna apenas formal. A consequência desse descompasso é a erosão da liderança estratégica.
Há ainda um equívoco recorrente: acreditar que a tarefa de dominar dados é técnica. Não é. A dimensão técnica importa, mas o que está em jogo é a capacidade executiva de ler sistemas sociotécnicos. Dados não são números, são escolhas codificadas. São modelos mentais transformados em métricas. São suposições estatísticas moldando comportamentos organizacionais em escala. Quando um executivo não compreende essa camada, ele perde a capacidade de desafiar a lógica do sistema.
O evangelizador de dados é, no fundo, o guardião da causalidade dentro da corporação. É quem questiona o que não está explícito. É quem recusa decisões amparadas em métricas cujo desenho ninguém lembra mais. É quem exige transparência metodológica, não por preciosismo, mas porque sabe que toda métrica cria incentivos, e todo incentivo move pessoas na direção que o algoritmo valoriza, não necessariamente na direção que a estratégia precisa.
Executivo que evangeliza dados pratica uma forma de vigilância intelectual: ele mantém o sistema honesto.
A necessidade dessa função fica ainda mais evidente quando pensamos em consequência. Antes, decisões equivocadas demoravam ciclos inteiros para se manifestar. Hoje, uma regra mal calibrada, implantada com IA, pode afetar milhares de transações em minutos. A consequência deixou de ser gradual e tornou-se acelerada.
A atitude de evangelizar dados é sobre criar um ambiente em que dados sustentam diálogo. Em que modelos de IA não são tratados como verdades, mas como hipóteses amplificadas. Em que decisões são julgadas pela integridade cognitiva de quem as tomou. Evangelizar dados é instaurar a cultura de que nada deve ser decidido sem que se compreenda o que se está realmente decidindo.
No mundo corporativo que está emergindo, o executivo perde relevância não por não saber programar, mas por não saber perguntar. Perde influência não por desconhecer técnicas estatísticas, mas por desconhecer os limites epistemológicos dos modelos que utiliza. Perde autoridade não por delegar análises, mas por delegar entendimento.
A IA continuará evoluindo, ampliando sua capacidade de predizer, sugerir e automatizar. Mas ela não substituirá o papel fundamental da liderança: interpretar propósito, avaliar risco moral, calibrar impacto humano e sustentar coerência organizacional. A IA opera padrões. Executivos operam consequências.
No fim das contas, toda empresa precisará de líderes que compreendam o que acontece antes e depois de cada número. Evangelizar dados é a nova forma de proteger a estratégia da própria velocidade do sistema.
Com isso, a empresa volta a ser conduzida por quem tem a obrigação ética, intelectual e executiva de conduzi-la.
*Victor Gonçalves é Chief Digital Officer na Verity.
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