Da maquete ao balanço: por que o investidor de imóveis no Brasil agora checa quem está por trás da obra
Com o imóvel na planta cada vez mais tratado como ativo de risco, o comprador deixou de decidir pela maquete e passou a avaliar quem está por trás do projeto — e a auditoria independente virou a chancela de maior valor.
Nos
principais mercados imobiliários do país, uma cena virou rotina: antes de
assinar um contrato de milhões por um apartamento na planta, o comprador pega o
celular e começa a pesquisar. Se há alguns anos a maquete bem feita, o decorado
impecável e uma boa condição de pagamento bastavam, hoje isso não é suficiente
– especialmente para quem compra com cabeça de investidor.
O perfil de quem compra imóvel
ajuda a explicar. Hoje, por exemplo, a idade média do comprador premium está na
faixa dos 40 aos 45 anos, o que, de certa forma, contribui para que a decisão
de compra não seja só pela maquete. Com esse público tratando o imóvel como outro
ativo de risco, aspectos como quem é a incorporadora, que obras já entregou, se
tem histórico de atraso e como anda a saúde financeira da empresa e se há alguém
independente atestando essas contas passaram a ser fatores decisivos na hora de
efetivar a aquisição de uma nova moradia.
“Comprar
imóvel na planta passou a ser, essencialmente, um teste de confiança de longo
prazo”, afirma o CFO da NF Empreendimentos, incorporadora de Itajaí, no litoral
catarinense, Jair Neto. “O cliente paga 10%, 15% por algo que ainda não existe
fisicamente. Em alguns casos, quando a estrutura começa a aparecer, ele já
colocou uma fatia relevante do patrimônio naquele projeto. Por isso é natural que queira saber
com quem está lidando”, acrescenta.
Essa
exigência cada vez mais acentuada desses investidores, no nível de checar quem,
de fato, está por trás da obra, tem resultado em balanços positivos e
interferido, inclusive, na velocidade de vendas de empreendimentos idealizados
por incorporadoras auditadas.
“Quando
se descobre que os resultados daquela incorporadora passam pelo crivo de uma
auditoria independente, o comprador tende a enxergar ali um nível maior de
segurança. E isso
ataca diretamente a maior objeção desse tipo de comprador: o medo de a obra
parar por falta de dinheiro — ou de estar financiando, sem saber, o caixa de
uma empresa alavancada", comenta Neto. Neste ano, a NF foi certificada pelo
segundo ano consecutivo pela PwC, uma das maiores auditorias corporativas do
mundo.
Essas
objeções não são algo inesperado. Para se ter uma ideia, nos últimos anos o
mercado enfrentou episódios de construtoras que quebraram no meio da obra e
deixaram edifícios pela metade. Com isso, o comprador de imóveis aprendeu:
hoje, antes de se encantar com o rooftop ou com a área de lazer, ele quer
entender se a empresa tem, de fato, condições de entregar o que está
prometendo.
À
medida que mais compradores – especialmente os que enxergam o imóvel como ativo
financeiro – passam a priorizar esses aspectos, como transparência financeira e
organização interna, entender as reais competências de quem está idealizando o
empreendimento deixa de ser apenas um tema “institucional” e vira, na prática,
um fator de decisão.
De
acordo com o CFO da NF, a consequência prática disso é um mercado que começa a
separar dois tipos de empresa. De um lado, incorporadoras que tratam o negócio
imobiliário como uma relação de longo prazo com clientes, bancos, fornecedores
e sócios, e se organizam financeiramente para isso – investindo em equipe,
processos, sistemas e certificações que comprovam o que dizem. De outro,
empresas que ainda operam apostando no oportunismo.
“Em
regiões onde convivem grandes grupos consolidados e players de perfil mais
aventureiro, essa diferença tende a ficar cada vez mais evidente à medida que o
investidor passa a pesquisar quem está idealizando o projeto”, diz.
Embora
o movimento de investidores checando histórico, números e governança esteja
ganhando força, a certificação por auditorias independentes ainda é minoria no
mercado imobiliário. A projeção é de que menos de 5% das incorporadoras da
região de Itajaí contem hoje com auditoria independente desse nível, o que
mantém esse tipo de certificação muito mais como um diferencial competitivo do
que como padrão do setor.
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