Dois imóveis por habitante: o que explica a matemática improvável de Xangri-Lá no RS
A
cidade de Xangri-Lá, a pouco mais de 130 km de Porto Alegre, tem se mostrado
uma cidade pequena com números de metrópole. Com pouco mais de 16 mil
habitantes, o município do litoral gaúcho movimenta um Valor Geral de Vendas
(VGV) de aproximadamente R$ 1.5 bilhão em imóveis. Em um primeiro olhar, a
conta não fecha. Mas basta se aproximar um pouco da realidade local para
perceber que a região não segue as regras tradicionais do mercado imobiliário
brasileiro – ela escreve as próprias.
Para
se ter uma ideia, hoje existem cerca de 32 mil imóveis residenciais na cidade.
Isso significa, em média, dois imóveis por habitante. O dado, por si só, rompe
completamente com a lógica comum, já que, normalmente, a referência é
justamente o oposto: fala-se em quantos habitantes existem por residência. Em
Xangri-Lá, a equação é invertida.
A
pergunta que surge é inevitável: quem é o dono de tudo isso?
A
resposta não está, necessariamente, nas ruas da cidade. Xangri-Lá é um
município cuja maior parte dos proprietários não vive ali. “Os donos dos
imóveis estão espalhados pelo Rio Grande do Sul, por outros estados brasileiros
e até em outros países”, pontua o especialista em negociações imobiliárias no
litoral gaúcho, Fabiano Braga. Segundo ele, o perfil é majoritariamente de
investidores e famílias de alta renda que escolheram o litoral gaúcho como destino
privilegiado para investir, veranear e proteger patrimônio.
Embora
o interesse nacional e internacional seja crescente, o coração desse movimento
segue sendo regional. Mais de 70% dos investidores são gaúchos. Nos últimos
anos, uma parcela expressiva da elite econômica do Estado passou a olhar para o
próprio litoral com outros olhos. Se antes era comum que o dinheiro buscasse
praias de Santa Catarina, outros balneários da região Sul ou até destinos em
países vizinhos, agora o movimento se inverteu: o litoral norte do Rio Grande
do Sul saiu da sombra e entrou no centro das decisões de investimento.
A
mudança de rota ajudou a consolidar a cidade como uma espécie de vitrine do
litoral gaúcho. Em pouco tempo, Xangri-Lá acumulou um conjunto de casas e
mansões, muitas delas em condomínios fechados de alto padrão – o município tem
o título de Capital dos Condomínios. E é justamente nesse último ponto que mora
um dos principais segredos do VGV bilionário: o tíquete médio.
Hoje,
o município concentra imóveis de luxo que ultrapassam, com folga, a casa dos R$
10 milhões. São mansões que mais parecem clubes particulares: piscinas, áreas
gourmet, arquitetura assinada, paisagismo, tecnologia embarcada e uma estética
que combina sofisticação com a ideia de “pé na areia”. Em alguns condomínios, é
possível caminhar por ruas onde praticamente cada casa representa uma fortuna
individual.
O “código-fonte”
do boom imobiliário de Xangri-Lá
O
resultado concreto fez a cidade gaúcha figurar, silenciosamente, entre os
mercados imobiliários mais valiosos do país, mesmo sem ter a densidade
populacional de grandes capitais. “O que a cidade tem, em vez disso, é uma
forte concentração de renda no tijolo: casas, lotes e condomínios que, somados,
compõem um mosaico bilionário de investimentos”, diz Fabiano.
O
movimento não tem passado despercebido e tem feito o mercado imobiliário
brasileiro olhar para Xangri-Lá com curiosidade: como uma cidade tão pequena
consegue atrair tantos recursos? A busca por respostas tem resultado em uma
verdadeira debandada de imobiliaristas de várias partes do país, que passaram a
incluir o litoral gaúcho em seus planos de viagem.
“Para
muitos executivos de imobiliárias, visitar Xangri-Lá hoje é quase como visitar
um laboratório: um ambiente controlado, com alta concentração de imóveis de
luxo, onde é possível observar tendências de consumo, estratégias de vendas e
modelos de atendimento voltados para um público com enorme poder aquisitivo”,
afirma.
Nos próximos dois meses, a operação comandada pelo especialista deve receber mais de 20 donos de imobiliárias de todas as regiões do Brasil, justamente com a intenção de entender o que está por trás desse fenômeno. “O mercado imobiliário tem se unido para compartilhar cases de sucesso justamente para mostrar, com exemplos concretos, o que pode ser feito de melhor em outras cidades do país”, finaliza Fabiano Braga.

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