Telessaúde na residência médica não pode mais ser opcional
*Por Rafael Duarte, CEO do Grupo RD Medicine
O Brasil realizou cerca de 30 milhões de atendimentos por telemedicina em 2023, um crescimento de 172% em relação ao período entre 2020 e 2022, segundo dados da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde). O número consolida o atendimento à distância como parte da rotina assistencial. No mesmo período, 77,8% dos estados brasileiros integravam a telemedicina ao SUS por meio de plataformas digitais, e o uso de teleconsultas chegou a crescer 350% durante a pandemia, de acordo com levantamentos baseados em dados públicos. Ainda assim, a formação médica, especialmente nos programas de residência, segue tratando o tema como periférico, quando não o ignora por completo.
Há um descompasso evidente entre o sistema de saúde que se consolidou nos últimos anos e o modelo de formação que prepara os médicos para atuar nele. A autorização emergencial da telemedicina em 2020, seguida de sua regulamentação definitiva pela Lei nº 14.510, de 2022, não foi acompanhada por uma revisão estrutural dos currículos de residência. O resultado é que muitos médicos concluem sua formação sem ter conduzido uma teleconsulta supervisionada, sem dominar as especificidades do exame clínico remoto e sem compreender plenamente os limites e as responsabilidades desse tipo de atendimento.
A lacuna vai além da questão pedagógica. Trata-se de uma falha clínica. A prática da telemedicina exige competências próprias, que não são automaticamente desenvolvidas a partir da experiência presencial. Conduzir uma anamnese eficiente sem o apoio do exame físico completo, adaptar a comunicação a contextos de baixa qualidade de conexão ou baixa familiaridade digital do paciente, e tomar decisões seguras sobre quando o atendimento remoto é suficiente ou quando deve ser convertido em presencial são habilidades que precisam ser ensinadas, praticadas e avaliadas.
Reduzir a telemedicina a uma simples videochamada é parte do problema. O atendimento remoto envolve dimensões éticas, legais e operacionais que demandam preparo específico. O médico precisa estar apto a obter consentimento informado em ambiente digital, garantir a proteção de dados conforme a legislação vigente, emitir prescrições eletrônicas válidas e documentar adequadamente cada interação. Esses elementos não são acessórios, mas componentes centrais da prática médica contemporânea.
A literatura científica já oferece evidências consistentes sobre os benefícios da inclusão estruturada da telessaúde na formação médica. Estudos publicados pela Revista Médica de Minas Gerais mostram que alunos submetidos a treinamento formal na área desenvolvem maior adaptabilidade na comunicação, melhor capacidade de gestão da relação médico-paciente em cenários adversos e mais precisão na triagem de casos que podem ser resolvidos remotamente. A telessaúde não substitui a clínica tradicional; ela amplia seu alcance e exige refinamento técnico para que isso ocorra com qualidade.
O principal desafio não está na comprovação da relevância, mas na implementação. Faltam preceptores capacitados, protocolos pedagógicos bem definidos e, sobretudo, reconhecimento institucional de que a competência digital em saúde deve ocupar o mesmo patamar das demais habilidades clínicas, como indicam diretrizes do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação para a formação médica no país.
Há ainda uma dimensão de equidade que precisa ser considerada. Em um país marcado por desigualdades regionais profundas, a telessaúde se tornou um instrumento relevante para ampliar o acesso à assistência, especialmente em áreas remotas ou com escassez de especialistas. Um médico bem treinado em telemedicina pode impactar positivamente populações que historicamente enfrentam barreiras de acesso. Ignorar essa competência na formação é, em última análise, limitar o alcance da própria medicina.
A mudança necessária não se resolve com a inclusão de um módulo isolado ao final da residência. Exige a incorporação da telessaúde como competência nuclear, com carga horária dedicada, supervisão qualificada e avaliação estruturada ao longo da formação. Isso implica revisão curricular, investimento em capacitação de preceptores e atualização dos critérios de acreditação dos programas.
Tratar a telessaúde como um conteúdo opcional em 2025 é repetir um erro já visto em outras transformações da prática médica. Assim como o prontuário eletrônico deixou de ser inovação para se tornar requisito básico, a competência digital em saúde já é parte indissociável do exercício profissional. A formação médica precisa reconhecer essa realidade não como tendência futura, mas como condição presente.
*Rafael Duarte é CEO do Grupo RD Medicine, referência global na preparação de médicos para as provas americanas de validação profissional (USMLE), oferecendo formação bilíngue completa, mentoria individualizada, estágios clínicos nos Estados Unidos e escola de inglês médico. - E-mail: rdmedicine@nbpress.com.br.
Sobre a RD Medicine
O Grupo RD Medicine é referência global na preparação de médicos para as provas americanas de validação profissional (USMLE), oferecendo formação bilíngue completa, mentoria individualizada, estágios clínicos nos Estados Unidos e escola de inglês médico. No Brasil, a empresa atua com o RD Residência, curso inovador que combina a tradição dos grandes preparatórios nacionais a metodologias inspiradas no ensino médico americano, como aulas por animação, técnicas de memorização visual e uso de inteligência artificial para personalizar os estudos. Fundada pelo médico Rafael Duarte, especialista em Anestesiologia no Brasil e em Medicina Interna nos EUA, a RD Medicine reúne em sua coordenação diretores de residência norte-americanos, líderes de faculdades de medicina brasileiras e especialistas com décadas de experiência internacional, formando um dos times mais qualificados do setor de educação médica no mundo. Para mais informações, acesse: rdmedicine.com.
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