Monitoramento contínuo da qualidade da água: o que muda quando o processo é acompanhado em tempo real?
Engº Francisco Carlos Oliver*
A legislação brasileira que rege a qualidade da água para consumo humano é rigorosa. A Portaria GM/MS nº 888/2021, que atualizou o Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/2017, estabelece parâmetros técnicos detalhados e frequências de amostragem para dezenas de substâncias, do cloro residual à turbidez, passando por metais pesados e cianotoxinas. Esse controle periódico, realizado em laboratório, é uma das bases reconhecidas para garantir a segurança da água distribuída à população e atende aos critérios estabelecidos pela regulamentação vigente. É justamente por confiar nessa estrutura consolidada que cabe uma pergunta complementar: o que muda quando, além dela, também passamos a acompanhar o processo em tempo real?
Um sistema de tratamento pode operar, por exemplo, com verificação diária de cloro residual livre, coleta mensal para coliformes e análises semestrais para determinados parâmetros químicos, tudo dentro do que a legislação exige e reconhece como adequado. Entre uma coleta e outra, no entanto, o processo continua em movimento, com variações naturais de vazão, temperatura e carga orgânica que fazem parte da rotina operacional de qualquer estação. Acompanhar essas variações também em tempo real, sem substituir o controle laboratorial, é a proposta do monitoramento contínuo.
Historicamente, o acompanhamento de parâmetros como pH, turbidez, cloro residual, amônia, absorbância UV254, potencial redox e condutividade era realizado predominantemente por meio da rotina laboratorial. Hoje, sensores e analisadores em linha permitem observar essas mesmas variáveis também em tempo real, complementando a fotografia periódica das análises laboratoriais com uma visão contínua do processo.
Essa camada adicional de acompanhamento também contribui para um controle mais preciso do consumo de produto químico. Um exemplo simples ilustra isso bem: quando a dosagem de cloro é ajustada com base em leituras pontuais, é comum trabalhar com uma margem de segurança um pouco mais generosa, para manter a constância da qualidade entre uma medição e outra. Com leitura contínua, a dosagem acompanha a variação real da água e pode ser ajustada de forma mais precisa, próxima ao valor desejado o tempo todo. Dessa forma, o operador passa a ter melhores condições de ajustar a dosagem dos insumos de maneira mais eficiente, contribuindo para maior estabilidade na qualidade entregue.
O mesmo raciocínio se aplica ao tratamento de esgoto. Cumprir os parâmetros de lançamento definidos pela legislação ambiental envolve acompanhar um processo que varia ao longo do dia, conforme mudam vazão e carga orgânica. O monitoramento contínuo oferece à equipe operacional uma ferramenta adicional para observar essas variações em tempo real e agir de forma proativa, reforçando ainda mais a segurança que o cumprimento das exigências legais já assegura.
Ainda hoje, muitas ETAs e ETEs brasileiras realizam parte importante do seu acompanhamento operacional por meio de análises periódicas. As razões são conhecidas: investimento inicial em equipamentos de monitoramento contínuo, necessidade de calibração e manutenção periódica dos próprios sensores, e uma cultura operacional historicamente construída em torno do laboratório como fonte de referência. São razões compreensíveis, e a adoção do monitoramento contínuo tende a avançar de forma gradual, na medida em que cada operação avalia o retorno do investimento para a sua realidade.
Esse movimento já pode ser observado no Brasil e em outros países. À medida que cresce a busca por eficiência hídrica e otimização de recursos, o monitoramento contínuo vem ganhando espaço como tecnologia complementar em estações de tratamento que buscam ampliar a eficiência operacional. Na prática, costuma resultar em menos retrabalho e em decisões operacionais apoiadas também por dados do momento, além do resultado das análises periódicas.
A estrutura de controle laboratorial e periódico segue sendo uma base fundamental da nossa legislação sanitária e dos processos de garantia da qualidade. O monitoramento contínuo se soma a esse modelo ao oferecer uma camada adicional de visibilidade sobre o processo, ampliando a capacidade das equipes operacionais de agir com mais precisão entre uma medição oficial e outra. Mais do que uma mudança de paradigma, trata-se de uma oportunidade de evolução operacional para quem busca aprimorar continuamente seus processos.
*Engº Francisco Carlos Oliver é diretor técnico industrial da Fluid Feeder, empresa especializada em soluções para tratamento de água e efluentes.
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