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Como usar inteligência artificial na saúde sem transformar a tecnologia em autoridade absoluta?

Nova regulamentação do CFM reforça que a IA deve apoiar, e não substituir, a decisão médica; unidade da Afip em Santos usa a tecnologia na elaboração dos laudos para a redução de erros de digitação e a maior padronização dos mesmos

Na próxima semana, dia 17 de setembro, é o Dia Mundial de Segurança do Paciente. Em um momento em que a IA já começa a transformar diferentes etapas da assistência à saúde, com potencial para ampliar a capacidade de análise de informações, apoiar diagnósticos e criar novas barreiras contra erros, nada mais atual do que pensar sobre como a tecnologia deve ser utilizada como aliada e quando a confiança excessiva em seus resultados pode criar novos riscos. 

O  debate ganha relevância diante da Resolução CFM nº 2.454/2026, que estabelece parâmetros para o uso da inteligência artificial na medicina e reforça o caráter de apoio da tecnologia à prática médica. A norma preserva a autonomia do médico para aceitar ou rejeitar recomendações produzidas por sistemas de IA e mantém a responsabilidade ética-profissional do médico pelos atos realizados com apoio da tecnologia.

De acordo com a Dra. Soraya Sgambatti de Andrade, Gerente médica da Afip Medicina Diagnóstica, na prática, isso significa que a IA não elimina a necessidade de avaliação crítica. "Uma recomendação produzida por um algoritmo não deve ser automaticamente transformada em uma decisão clínica; se faz necessária uma análise do profissional, que  precisa considerar evidências científicas, contexto clínico e características individuais do paciente", explica. 

Na unidade da Afip em Santos, por exemplo, a inteligência artificial vem sendo aplicada ao processo de elaboração dos laudos de ultrassom com foco em dois pontos diretamente relacionados à segurança do paciente: a redução de erros de digitação e a maior padronização dos laudos.

Embora possam parecer questões operacionais, falhas na documentação de um exame podem gerar ruído na comunicação entre profissionais, dificultar a interpretação das informações e criar riscos desnecessários ao longo da jornada assistencial. Nesse contexto, a IA atua como uma ferramenta de apoio ao médico, contribuindo para tornar o registro das informações mais consistente e estruturado.

“Quando falamos em segurança do paciente, muitas vezes pensamos apenas em grandes erros diagnósticos. Mas a segurança também está nos detalhes do processo. Um erro de digitação, uma informação registrada de forma inconsistente ou diferenças excessivas na estrutura dos laudos podem gerar dúvidas e dificultar a comunicação clínica; por aqui, estamos utilizando a inteligência artificial justamente para ajudar a reduzir esses pontos de vulnerabilidade”, afirma Jacques Chicourel, Diretor de Inovação e Dados da Afip.

A solução auxilia na elaboração do laudo, ajudando a reduzir erros de digitação e promovendo maior padronização na forma como as informações são registradas, sem retirar do médico a responsabilidade pela análise e validação final do documento.

“A IA entra como uma camada adicional de segurança. Ela não substitui o médico e não toma a decisão clínica, mas ajuda a tornar o processo mais consistente. Para nós, esse é um exemplo importante de como a tecnologia pode contribuir para a segurança do paciente sem precisar assumir o papel de autoridade absoluta”, explica Chicourel.

Segundo o executivo, o impacto da inteligência artificial na saúde não deve ser avaliado apenas por ganho de velocidade ou produtividade. “Um dos critérios mais importantes para decidir se uma tecnologia gera valor em saúde é entender se ela ajuda a reduzir riscos. Se conseguirmos diminuir erros de digitação, aumentar a padronização e entregar ao médico solicitante uma informação mais clara e consistente, estamos fortalecendo uma etapa importante da cadeia de segurança do paciente”, completa.

O desafio: a tecnologia também pode criar riscos

Não há dúvidas de que a inteligência artificial pode contribuir para a segurança do paciente, mas também introduz novos pontos de atenção. "Um dos principais é a chamada confiança excessiva na tecnologia, quando profissionais deixam de questionar uma informação produzida pelo sistema simplesmente porque ela foi apresentada por uma ferramenta considerada confiável".

Na medicina laboratorial, esse cuidado é especialmente relevante. Soraya ressalta que a segurança diagnóstica não depende apenas do momento em que o exame é processado pelo equipamento. Ela envolve uma cadeia que inclui identificação do paciente, preparo, coleta, transporte, análise, interpretação e comunicação dos resultados. Nesse cenário, sistemas de IA podem ser utilizados para criar barreiras adicionais de segurança e identificar inconsistências, desde que sejam previamente validados, tenham sua utilização claramente definida e sejam continuamente monitorados.

E quem é o responsável se a IA errar? A pergunta está no centro da discussão sobre segurança e governança da inteligência artificial na saúde. A regulamentação do CFM estabelece que o médico permanece responsável, no âmbito ético-profissional, pelos atos médicos praticados com auxílio da IA. Ao mesmo tempo, reconhece a possibilidade de situações em que uma falha seja atribuída exclusivamente à tecnologia, desde que o profissional tenha utilizado a ferramenta de maneira diligente, crítica e ética. Por isso, a discussão sobre responsabilidade não deve se limitar a identificar quem cometeu um erro. “É preciso investigar quais barreiras de segurança existiam, se foram adequadamente implementadas e por que não impediram que uma falha chegasse ao paciente”, finaliza Soraya.

Sobre a Afip

A Afip é um ecossistema de saúde que integra diagnóstico, ciência e inovação. Tem uma atuação abrangente, com unidades de negócio em pesquisa, ensino e serviços. Atende parceiros públicos e privados em diversas regiões do país e se destaca por soluções de excelência, impacto social e pesquisas científicas de reconhecimento internacional. Em 2026, completamos 50 anos de história, inspirados pela ciência e dedicados à saúde. Para informações adicionais, acesse o site www.afip.com.br.

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