Mobilidade global não é apenas imigração: é estratégia de competitividade
Dra. Ana Carolina Freitas*
Existe uma falha silenciosa no planejamento de expansão internacional das multinacionais. Meses de trabalho e milhões em orçamento são destinados a estudos de mercado, viabilidade de aportes e adaptação a regras comerciais. No entanto, a equipe responsável por concretizar o empreendimento, o elemento humano, costuma ser relegada ao fim do processo, como mero trâmite burocrático a ser resolvido pouco antes do lançamento.
Essa miopia corporativa se torna ainda mais arriscada em um cenário de volatilidade geopolítica. Com o avanço do protecionismo, de barreiras tarifárias e do rigor migratório nos Estados Unidos e em países europeus, empresas concentram esforços na matemática financeira das tarifas. Pouco se discute, porém, a contrapartida invisível: a imprevisibilidade dos fluxos migratórios e a dificuldade de alocar executivos e técnicos no momento certo.
A lógica dominante ainda é simplista: primeiro fecha-se o negócio; depois, cuida-se da imigração. É esse desalinhamento que custa caro.
A implantação da fábrica da BYD, em Camaçari, na Bahia, expôs esse risco. Centenas de trabalhadores foram deslocados da China para as obras, mas a operação passou a ser investigada por irregularidades migratórias e graves violações trabalhistas atribuídas também a empresas contratadas. Houve interrupção de parte das obras, retorno de trabalhadores à China, suspensão de novos vistos temporários e revisão do cronograma. O episódio mostrou que mobilidade global exige compatibilizar previamente vistos, autorizações de trabalho, contratos, condições laborais, fornecedores e regras locais.
Mobilidade global, portanto, não se resume a formulários, carimbos ou exigências cartorárias. É estratégia de competitividade. Deve integrar, desde o início, planejamento migratório, tributário, trabalhista, previdenciário e societário, além de remuneração internacional, proteção de dados e necessidades familiares do profissional transferido. Cada dimensão interfere no custo, no prazo, na segurança jurídica e na sustentabilidade da operação.
A mobilidade começa quando a diretoria desenha o mapa de expansão e decide onde investir. De nada serve identificar o mercado ideal se, às vésperas do lançamento, profissionais essenciais descobrem que não podem atuar no país de destino. A ausência de um único executivo pode atrasar uma fábrica, comprometer a transferência de tecnologia e abrir espaço para a concorrência.
Em um ambiente internacional instável, deslocar talentos com agilidade e segurança jurídica tornou-se um ativo central. Organizações maduras tratam a legislação migratória como variável de risco operacional: antecipam cenários, compreendem os fluxos regulatórios e decidem onde crescer sabendo como e quando suas equipes poderão atuar.
A mobilidade global não deve entrar no projeto depois da decisão de investimento; precisa participar da própria decisão. Enquanto a circulação de profissionais for vista apenas como custo burocrático, empresas continuarão queimando tempo e capital. O mercado não espera: a execução da estratégia depende de posicionar as pessoas certas, nos lugares certos, no momento certo.
* Dra. Ana Carolina Freitas é advogada internacionalista especializada em imigração e mobilidade global. É colunista do SBT/TV Alterosa, em Belo Horizonte (MG), onde aborda Direito Internacional e mobilidade global.
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