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Novo sistema de transplante de rim usará compatibilidade virtual para priorizar pacientes hipersensibilizados

Projeto com participação do Igen foca em facilitar transplantes em pacientes classificados como "hipersensibilizados"

Muitos não sabem, mas existe um grupo de pacientes para quem quase nenhum doador de órgãos serve. São os chamados hipersensibilizados: pessoas cujo sistema imunológico já reconhece como incompatível uma fatia muito grande da população, o que reduz muito suas chances de encontrar um doador. A boa notícia é que um novo sistema, específico para o transplante renal e no qual o Instituto de Imunogenética – Igen/Afip participa de forma ativa, deve entrar em vigor no primeiro semestre de 2027, buscando mudar essa lógica para que, assim que aparecer um doador compatível, este paciente vá direto para o topo da lista.

Essa mudança é viabilizada por um método de teste de compatibilidade conhecido como "prova cruzada virtual", que prevê a compatibilidade a partir de dados genéticos e sorológicos, sem depender do teste físico feito hoje em laboratório. O projeto irá integrar a nova regulamentação brasileira de transplantes, seguindo uma tendência já adotada em diversos países do mundo. A Central Estadual de Transplantes,  da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, com a participação de membros da sociedade brasileira transplantadora, incluindo o Igen, desenvolve um novo sistema informatizado que irá gerenciar a distribuição de órgãos de doadores falecidos.

Segundo a diretora do Instituto de Imunogenética (Igen), Maria Gerbase de Lima, hoje um paciente hipersensibilizado pode esperar anos por um doador compatível, porque o corpo dele rejeita órgãos de uma grande parte da população. "A prova cruzada virtual é fruto do aperfeiçoamento dos testes de imunogenética  e de muita pesquisa, com isso é possível aplicá-lo para tentar reduzir esse tempo de espera sem abrir mão do rigor científico", reforça.

O que é ser hipersensibilizado?

Um paciente comum entra na fila e espera até aparecer um doador compatível. Já um paciente hipersensibilizado espera o mesmo doador, no entanto, o corpo dele já rejeita boa parte de quem poderia doar. Isso acontece porque, ao longo da vida, o sistema imunológico registra contato com antígenos de outras pessoas, numa transfusão de sangue, numa gravidez ou num transplante anterior, e passa a produzir anticorpos contra a principal molécula de histocompatibilidade, chamada HLA.

Quanto mais contato desse tipo a pessoa teve, maior a probabilidade de ampliar a lista de doadores que o corpo dela recusa. No limite, ela pode reagir contra a maior parte da população, e cada doador compatível que aparece se torna uma chance rara.

Para se ter uma ideia, só na fila de espera para transplante de rim, segundo o Ministério da Saúde, são 40 mil pacientes. Metade está em São Paulo, e 15 mil estão vinculados ao próprio Igen, que assim reúne a maior lista de espera dos pacientes candidatos a transplante renal do mundo, e o maior laboratório do SUS nessa área. "O objetivo é fechar uma lacuna de equidade que a fila atual não resolve. Cerca de 8% das novas inscrições para transplante renal já tiveram transplante anterior, quadro que aumenta o risco de hipersensibilização", afirma.

Os critérios de alocação já foram aprovados e agora está em processo de desenvolvimento o sistema que irá gerenciar todas essas informações.

Como a fila garante equidade

A alocação de órgãos no Brasil segue critérios técnicos definidos pelo sistema de transplantes, sem distinção entre pacientes do SUS e da rede privada. O processo considera compatibilidade genética, tipo sanguíneo e tempo de espera, e mantém equidade demográfica, incluindo a proporção entre homens e mulheres na fila.

O Igen entra nessa cadeia como laboratório de pesquisa que realiza os exames genéticos para inscrição do paciente em lista de espera, dos doadores falecidos no momento da doação, de exames de manutenção dos pacientes em lista e também do exame de compatibilidade, a prova cruzada, no momento da doação. Todas as ligações com a central de transplantes são gravadas, e os resultados dos exames são enviados por e-mail e laudo formal, nunca por telefone, para evitar erro de transcrição.

Desde 2019, o laboratório já mudou a forma de testar a compatibilidade: o exame, chamado de prova cruzada, passou a usar amostras de sangue coletadas com antecedência, no lugar de fragmentos do baço ou de gânglios do doador. Com isso, foi possível reduzir o tempo de liberação do último exame de compatibilidade em mais de 10 horas e, em muitos casos, o resultado fica pronto antes mesmo da retirada dos rins. Isso é fundamental para diminuir o tempo em que o órgão fica em solução de armazenamento, a chamada isquemia fria, o que melhora a qualidade do órgão.

Como funciona a doação de órgãos no Brasil

No Brasil, a doação de órgãos só acontece com autorização da família, mesmo quando a pessoa já manifestou esse desejo em vida: não existe registro em cartório ou documento que substitua essa conversa. Em 2025, 45% das entrevistas feitas com famílias de potenciais doadores terminaram em recusa, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Um único doador falecido pode salvar até oito vidas. A orientação repetida todos os anos pela campanha Setembro Verde é direta: avise a família se você quer ser doador. Mais informações em gov.br/saude.

Sobre a Afip

A Afip é um ecossistema de saúde que integra diagnóstico, ciência e inovação. Tem uma atuação abrangente, com unidades de negócio em pesquisa, ensino e serviços. Atende parceiros públicos e privados em diversas regiões do país e se destaca por soluções de excelência, impacto social e pesquisas científicas de reconhecimento internacional. Em 2026, completamos 50 anos de história, inspirados pela ciência e dedicados à saúde. Para informações adicionais, acesse o site www.afip.com.br.

Sobre o IGEN

O IGEN é um laboratório de imunogenética ligado à Afip, especializado em testes de compatibilidade para transplante de órgãos sólidos de doadores vivos e falecidos e medula óssea. É acreditado pela Federação Europeia de Imunogenética (EFI), sendo, desde julho de 2022, o primeiro laboratório do Brasil a receber essa acreditação para transplantes renais e de medula óssea, e pela Associação Brasileira de Histocompatibilidade e Imunogenética (ABHI). Opera 24 horas por dia, todos os dias da semana. Site do IGEN: www.igen.org.br.

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