O cartão pode comprometer o salário antes de ele chegar
Compras parceladas nos próximos meses avançam sobre a renda futura e deixam menos espaço para despesas essenciais e imprevistos
O Brasil fechou julho com 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a 51% da população adulta, segundo a Serasa. Esse contingente acumulava 348,3 milhões de dívidas, que somavam R$586,4 bilhões. Com a aproximação dos meses de maior apelo ao consumo, o alerta deixa de estar apenas nas contas que já venceram e passa para um dinheiro que ainda nem chegou: parcelas contratadas a partir de setembro podem avançar sobre os próximos salários e reduzir a margem disponível justamente quando novas despesas começam a se acumular.
Para Ricardo Hiraki, CEO e cofundador da Plano Fintech, que combina tecnologia e acompanhamento especializado para auxiliar consumidores no controle das despesas e na redução do endividamento, e José Leonardo de Campos, cofundador da Plano Fintech olhar apenas para o valor da compra pode esconder o efeito mais relevante do parcelamento: a perda de liberdade sobre a renda dos meses seguintes.
“Uma prestação pode parecer pequena quando é analisada sozinha. O problema aparece quando ela encontra outras parcelas que já estavam contratadas e passa a disputar espaço com supermercado, moradia, transporte e demais despesas essenciais. Nesse momento, parte do próximo salário já tem destino antes mesmo de entrar na conta”, explica José Leonardo.
Os números da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo ajudam a dimensionar essa pressão. Em julho, 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida a vencer, maior percentual da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. Entre os endividados, 19% comprometiam mais da metade dos rendimentos mensais com obrigações financeiras.
Quando o próximo salário já está gasto
A concentração de datas comerciais nos meses seguintes amplia o risco de sobreposição. Uma compra dividida em cinco vezes em setembro, por exemplo, continuará sendo cobrada em janeiro, período em que muitas famílias também lidam com despesas escolares, tributos e outros compromissos do início do ano.
O comportamento já apareceu em pesquisas de consumo. No levantamento realizado pela CNDL e pelo SPC Brasil para o Dia das Crianças de 2025, 40% dos consumidores que pretendiam comprar presentes planejavam parcelar, com média de cinco prestações. Outros 27% admitiram gastar mais do que podiam na data e 12% disseram que poderiam deixar alguma conta sem pagamento para garantir a compra. A pesquisa funciona como um retrato de como ocasiões de forte apelo emocional podem disputar espaço com obrigações já assumidas.
Para Hiraki, o erro está em avaliar cada aquisição como se ela terminasse no mês em que foi feita. “O consumidor costuma perguntar se a parcela cabe hoje, quando deveria perguntar se todas as parcelas juntas continuarão cabendo daqui a três ou quatro meses. O cartão de crédito permite antecipar consumo, mas também antecipa o comprometimento da renda futura”, afirma.
Nome limpo pode esconder uma renda sem margem
Estar com todos os pagamentos em dia, portanto, não significa necessariamente ter equilíbrio financeiro. Quando grande parte do salário já está reservada para prestações anteriores, qualquer novo gasto reduz a capacidade de enfrentar um imprevisto sem recorrer novamente ao crédito.
A própria CNC identificou que 29,8% das famílias tinham contas atrasadas em julho. Embora o percentual tenha apresentado pequena redução no mês, o endividamento continuou em nível recorde, mostrando que manter os pagamentos ainda é um desafio para uma parcela relevante dos brasileiros.
“Antes da negativação existe uma etapa menos visível, em que a pessoa continua pagando, mas perde progressivamente a capacidade de escolher o que fazer com o próprio dinheiro. Quando uma nova compra só cabe porque outra despesa será adiada ou porque será necessário usar mais crédito, o sinal de alerta já apareceu”, ressalta José Leonardo.
O cartão não é o problema isoladamente. O risco está na soma
Para evitar que o último trimestre transforme despesas de consumo em pressão financeira no início de 2027, o ponto de partida é descobrir quanto dos próximos salários já estão comprometidos. Isso exige reunir prestações, empréstimos, gastos fixos e valores previstos no cartão antes de assumir uma nova compra.
A análise também deve considerar o tempo. Uma prestação que parece baixa pode atravessar diferentes momentos de consumo e chegar a meses em que o orçamento já possui outras obrigações. Por isso, o valor disponível para novas compras não corresponde simplesmente ao limite liberado pela instituição financeira.
“Limite disponível e dinheiro disponível são coisas diferentes. O banco informa quanto ainda pode ser gasto no cartão, mas é o consumidor que precisa calcular quanto daquela compra realmente cabe na renda futura sem comprometer outras prioridades”, aponta Hiraki.
A negativação pode ser o desfecho mais visível da perda de controle, mas o problema começa antes. Entre setembro e janeiro, observar não apenas quanto custa uma compra, mas por quantos salários ela continuará sendo paga, pode ser decisivo para evitar que uma sequência de datas comerciais transforme consumo presente em dívida futura.
Sobre José Leonardo
José Leonardo de Campos é engenheiro eletricista e cofundador da Plano Fintech de Educação Financeira, especializada em organização financeira para famílias e pequenos negócios. Com passagem por multinacionais como Ericsson e Tektronix, construiu experiência em gestão, análise de processos e tomada de decisão orientada por dados, competências que hoje direciona à educação financeira prática. Sua atuação é focada na simplificação do planejamento, com ênfase em clareza e método como base de estabilidade econômica.
Filho de professora da rede pública e bolsista integral pelo ProUni, estruturou sua trajetória a partir da educação como instrumento de mobilidade social. Ao migrar da engenharia corporativa para o empreendedorismo, passou a defender a organização financeira como habilidade essencial para reduzir a vulnerabilidade e qualificar decisões estratégicas, tanto no campo pessoal quanto empresarial.
Para mais informações, acesse linkedin.
Sobre Ricardo Hiraki
Ricardo Hiraki é empreendedor e investidor em inovação e no mercado imobiliário. CEO e cofundador da Plano Fintech, é administrador com pós-graduação pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atuou por quase dez anos em posições de liderança na área financeira no ambiente corporativo, com foco em gestão, controle de custos e apoio à tomada de decisão executiva.
Desde a fundação da Plano, Hiraki passou a se dedicar à criação e ao investimento em negócios de impacto, com o objetivo de ampliar o acesso à saúde financeira no Brasil. Sua atuação está concentrada no desenvolvimento de soluções que combinam tecnologia, educação financeira e novos modelos de serviço, voltados à organização do orçamento, redução de dívidas e decisões financeiras mais conscientes.
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