Os desafios impostos pelo El Niño ao setor elétrico nacional
Integrantes do Grupo de Excelência em Negócios de Energia - GENE, do CRA-SP, alertam para a importância da gestão de riscos e do planejamento estratégico para a redução dos impactos de eventos climáticos severos no setor de energia brasileiro
Dados da National Oceanic and Atmospheric Administration - NOAA indicam que o El Niño previsto para atingir o Brasil entre a primavera e o verão de 2026 e 2027 tende a ser o mais intenso desde 1950. Provocado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno altera os padrões globais de circulação atmosférica e influencia diretamente no clima em diversas partes do mundo.
No Brasil, os efeitos mais esperados do El Niño, como aumento das temperaturas, ondas de calor mais frequentes, chuvas acima da média e períodos prolongados de seca, já têm sido notados nas diferentes regiões do país. Essas mudanças, no entanto, desafiam o sistema elétrico brasileiro, pois as instabilidades climáticas podem comprometer a geração, a transmissão e o consumo de energia em âmbito nacional.
Para enfrentar esses impactos, o setor de energia precisa atuar de forma resiliente, com antecipação de cenários, identificação de vulnerabilidades e estabelecimento de planos de respostas antes que os eventos extremos ocorram. De acordo com as especialistas Adm.ª Kátia Helena de Freitas Mouffron e Sueli Berselli Marinho, integrantes do Grupo de Excelência em Negócios de Energia - GENE, do Conselho Regional de Administração de São Paulo - CRA-SP, o planejamento e a gestão de risco são indispensáveis para o enfrentar os eventos extremos com segurança, continuidade e menor impacto para a sociedade.
“É preciso investir em uma matriz diversificada, infraestrutura de transmissão, armazenamento, monitoramento e planos de contingência, para garantir que o sistema tenha alternativas quando uma condição prevista não acontece como esperado”, avaliam.
Um dos grandes desafios do setor, segundo as especialistas, é administrar a imprevisibilidade em um país de dimensões continentais, no qual os efeitos climáticos não ocorrem da mesma maneira. “Pode haver excesso de chuvas em determinadas áreas, estiagem em outras, temperaturas elevadas, tempestades, queimadas e impactos sobre a infraestrutura. A menor disponibilidade hídrica aumenta a necessidade do acionamento de usinas termelétricas, o que também eleva o valor da conta de energia”, explicam as especialistas.
Para elas, o desafio não se restringe apenas em gerar mais energia, mas em ter flexibilidade operacional e capacidade técnica para manter o sistema funcionando diante dos cenários adversos.
Medidas preventivas e o papel das fontes renováveis
Segundo as integrantes do GENE, o setor elétrico nacional tem se aperfeiçoado no monitoramento climático, modernizado as redes, investido em planos de contingência, dado mais atenção às linhas de transmissão e instalado equipamentos de monitoramento em torres de transmissão.
Além disso, a Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL tem reforçado a agenda de resiliência, com medidas voltadas à prevenção, contingência e treinamento. “Apesar disso, não podemos trabalhar com uma única estratégia para um país com realidades tão diferentes. O planejamento precisa respeitar as particularidades e a interdependência de cada região”, comentam as especialistas.
Para apoiar essa governança regulatória na prática, outra estratégia capaz de aumentar a segurança energética do país e, ainda, favorecer o bolso do consumidor é a diversificação da matriz energética. A expansão de fontes limpas, como as energias solar e eólica, pode complementar a geração hidráulica e reduzir a dependência das termelétricas.
Para isso, o investimento em infraestrutura de transmissão e sistemas de armazenamento, para que a energia esteja disponível onde e quando houver necessidade, é imprescindível. “Uma matriz mais diversificada traz maior previsibilidade e eficiência de custos no longo prazo, com menos impactos ao consumidor”, alegam.
Inovação e IA são a solução
Segundo as integrantes do GENE, embora exista a probabilidade de o El Niño atingir a categoria de intensidade “muito forte” nos próximos meses, o país não corre risco de apagão e nem precisará adotar medidas extremas de racionamento.
Contudo, a matriz de risco energético do país passou por transformação. As especialistas explicam que antes a atenção se voltava sobretudo para a escassez de água, enquanto hoje se direciona aos eventos climáticos severos, como chuvas, vendavais e descargas atmosféricas. Essa nova realidade demanda a modernização das infraestruturas elétricas, o uso de inteligência artificial e a digitalização das redes.
“A antecipação do tratamento de dados climáticos é vital para o planejamento estratégico, que visa evitar prejuízos de grande escala e assegurar a estabilidade energética do país”, concluem.
Sobre o CRA-SP: O Conselho Regional de Administração de São Paulo – CRA-SP é uma autarquia federal, criada em 1968 (três anos após a regulamentação da profissão de Administrador) que atualmente reúne cerca de 8 mil empresas e 60 mil profissionais registrados. Embora suas principais funções sejam o registro e a fiscalização do exercício profissional nas áreas da Administração, o CRA-SP tornou-se referência na qualificação de profissionais, ao disponibilizar, de forma gratuita, palestras e eventos em um ambiente onde o conhecimento é tratado como uma poderosa ferramenta, capaz de promover profundas mudanças sociais. Atualmente, o CRA-SP é presidido pelo Adm. Alberto Whitaker.
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