Seu endereço pode pesar na balança - Como o lugar onde você vive influencia a alimentação e o peso
Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, 11 de outubro, especialista alerta para a importância de olhar para o ambiente em que as pessoas vivem e discutir escolhas saudáveis e possíveis para quem tem orçamento limitado
Quando o assunto é obesidade, é comum que a discussão se concentre em escolhas individuais: o que a pessoa come, quanto se exercita e como organiza sua rotina. Mas, neste Dia Nacional de Prevenção à Obesidade, 11 de outubro, vamos ampliar o nosso olhar para algo que muitas vezes fica fora dessa equação: o lugar onde ela vive.
A disponibilidade de alimentos, os preços praticados no comércio local, o acesso a feiras e supermercados, o tempo disponível para cozinhar e até a existência de calçadas, iluminação e espaços seguros para a prática de atividade física podem facilitar ou dificultar a adoção de hábitos mais saudáveis.
É o que explica a Dra. Priscila Schinzari, endocrinologista do Hospital Santa Marcelina, localizado na Zona Leste de São Paulo. “Não basta haver alimentos saudáveis por perto se eles não cabem no orçamento da família”, afirma. Segundo a médica, isso não significa que o bairro determine o peso de uma pessoa, já que a obesidade possui múltiplas causas, mas as condições de vida podem tornar os hábitos saudáveis mais fáceis ou mais difíceis de manter.
Quando o orçamento determina o que vai para a mesa
A renda é um dos principais fatores relacionados ao acesso à alimentação. Em situações de insegurança alimentar e nutricional, por exemplo, a dificuldade não está necessariamente na ausência completa de comida, mas no acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade adequadas.
Com o orçamento apertado, muitas famílias precisam fazer escolhas para que os alimentos durem até o fim do mês. Nesse cenário, pode haver redução na variedade da alimentação e na frequência de compra de alimentos in natura, como frutas, verduras, ovos e carnes frescas. A prioridade passa a ser garantir (garantida) que haja comida suficiente, muitas vezes optando por produtos mais baratos e de maior rendimento.
“Dizer simplesmente que uma pessoa ‘precisa planejar melhor as compras’ não contempla toda a realidade. Uma alimentação equilibrada pode, sim, ser composta por alimentos simples e tradicionais, como arroz e feijão, mas é preciso considerar se a renda permite garantir regularmente quantidade e qualidade adequadas durante todo o mês”, explica Dra. Priscila.
Uma alternativa prática pode ser substituir, em algumas refeições, produtos como macarrão instantâneo ou refeições prontas por combinações como arroz, feijão e ovo. “A proposta, porém, não é buscar uma alimentação perfeita, mas encontrar escolhas possíveis dentro do orçamento e da rotina de cada pessoa”, ressalta Priscila.
Desertos Alimentares
Outro aspecto importante é o chamado ambiente alimentar. Em regiões com poucas feiras e estabelecimentos que oferecem alimentos frescos e variados, uma compra equilibrada pode exigir mais tempo, deslocamento e dinheiro.
A endocrinologista conta que esses territórios podem ser classificados como “desertos alimentares”, ou seja, quando neles há dificuldade de acesso a alimentos saudáveis. Já os locais onde predominam estabelecimentos que comercializam principalmente produtos ultraprocessados são chamados de “pântanos alimentares”. Um mesmo bairro pode apresentar as duas características.
“A escolha alimentar não depende apenas da vontade da pessoa, mas também do que ela consegue encontrar e comprar perto de casa. Os ultraprocessados acabam tendo presença importante nesses ambientes não apenas pelo preço. São produtos que, em geral, têm maior durabilidade, são fáceis de armazenar e muitos já estão prontos para o consumo”, exemplifica.
Falta de acesso à comida e excesso de peso podem coexistir
Pode parecer contraditório, mas insegurança alimentar e excesso de peso podem ocorrer simultaneamente. Isso acontece porque a insegurança alimentar não significa necessariamente ausência total de comida.
Uma pessoa pode consumir calorias suficientes, mas não ter acesso regular a alimentos variados e de boa qualidade. A instabilidade no acesso aos alimentos também pode levar a períodos de menor consumo seguidos por maior ingestão quando há comida disponível. O estresse provocado pela preocupação constante com a alimentação e a associação observada em estudos entre insegurança alimentar e episódios de compulsão também fazem parte dessa relação complexa.
Comer melhor e fazer exercício nem sempre é uma orientação possível
Para a especialista, prevenção e tratamento da obesidade precisam partir da realidade de cada paciente. “Na consulta, precisamos entender o que a pessoa consegue comprar, quanto tempo tem para preparar as refeições e se dispõe de um lugar seguro para se movimentar”, afirma.
Uma pessoa que passa horas no trajeto entre casa e trabalho, por exemplo, pode não ter condições de simplesmente “acordar mais cedo” para se exercitar ou treinar ao chegar em casa. Quando essas barreiras são ignoradas, existe o risco de oferecer recomendações difíceis de seguir e ainda responsabilizar individualmente o paciente por não conseguir cumpri-las.
Para a Dra. Priscilla, ampliar o acesso à alimentação saudável e à atividade física exige medidas que vão além da atitude individual. “Envolve ampliar o acesso a alimentos nutritivos com preços compatíveis com a renda das famílias, apoiar feiras e formas de abastecimento em regiões pouco atendidas e garantir infraestrutura urbana adequada, como calçadas, iluminação e espaços públicos seguros para a prática de atividade física”.
Movimento também precisa caber na rotina
A atividade física não precisa necessariamente acontecer em uma academia ou parque. Quando houver condições de segurança, pequenos períodos de movimento ao longo do dia podem ser uma alternativa.
São os chamados “snacks de exercício” - momentos curtos de atividade distribuídos pela rotina, como subir alguns lances de escada, caminhar por alguns minutos ou fazer exercícios simples em casa.
A médica, no entanto, reforça que essa recomendação também precisa considerar a realidade de cada pessoa. “A falta de espaços seguros e de tempo livre pode ser uma barreira importante e não deve se transformar em mais uma cobrança individual”, ressalta.
Ambulatório de Atendimento à Obesidade do Hospital Santa Marcelina: O Hospital Santa Marcelina possui um ambulatório de controle da obesidade voltado a pessoas encaminhadas para avaliação de cirurgia bariátrica e a pacientes que já passaram pelo procedimento.
O acompanhamento é multidisciplinar e envolve endocrinologia, nutrição, psicologia e equipe de cirurgia bariátrica, tanto no período anterior quanto após a cirurgia. O procedimento é considerado apenas uma etapa do tratamento, que precisa continuar no pós-operatório.
A porta de entrada para o ambulatório ocorre por meio de encaminhamento da rede de saúde, regulado pela Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (CROSS).
No comments