Morte de juiz carbonizado em SP: perícia pode identificar sinais de vida durante incêndio e possíveis lesões
Especialista explica como exames no corpo e análise das vias respiratórias podem ajudar a esclarecer as circunstâncias da morte
A investigação sobre a morte do juiz Gustavo de Castro Campos, de 45 anos, encontrado carbonizado dentro de seu carro na zona rural de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, depende de exames médico-legais para esclarecer a causa da morte e as circunstâncias do incêndio. O magistrado, que atuava na 2ª Vara da Comarca de Mococa, foi encontrado na noite de quarta-feira (7), no banco do motorista de um veículo em chamas. A perícia inicial não identificou sinais aparentes de violência, mas localizou um galão com forte odor de gasolina próximo aos pedais. O caso é investigado pela Polícia Civil como morte suspeita.
Segundo Caroline Daitx, médica especialista em medicina legal e perícia médica, a necropsia e os exames complementares serão fundamentais para verificar se a vítima ainda estava viva quando o incêndio começou e identificar possíveis lesões anteriores à carbonização. “Essa conclusão não costuma depender de um único exame. A perícia procura vários sinais que, analisados em conjunto, ajudam a indicar se a pessoa respirou durante o incêndio”, explica.
Um dos principais procedimentos é a dosagem de carboxihemoglobina no sangue, formada pela ligação do monóxido de carbono à hemoglobina. A presença dessa substância em concentrações relevantes pode indicar que a vítima inalou gases da combustão enquanto ainda estava viva. Outro exame importante é a avaliação das vias respiratórias para identificar fuligem e alterações provocadas pela inalação de fumaça e calor. “A presença de fuligem nas vias aéreas profundas ou de carboxihemoglobina pode indicar que houve respiração enquanto o incêndio ocorria. Mas nenhum desses achados deve ser interpretado isoladamente”, ressalta Caroline. Dependendo das condições do corpo, exames toxicológicos e histológicos também podem contribuir para a investigação.
Carbonização pode dificultar identificação de sinais de violência
Outro ponto relevante é a possibilidade de identificar lesões anteriores ao incêndio, mesmo quando o corpo apresenta carbonização. Segundo a especialista, a ausência de sinais aparentes de violência na avaliação inicial não é suficiente para descartar a existência de ferimentos. “A carbonização pode dificultar muito o exame externo, mas isso não significa que eventuais lesões anteriores ao incêndio deixem necessariamente de ser identificadas”, afirma.
Durante a necropsia, os peritos examinam tecidos profundos, órgãos internos e estruturas ósseas em busca de alterações que possam indicar traumatismos anteriores à exposição ao fogo. Exames de imagem realizados após a morte também podem auxiliar na identificação de fraturas, corpos estranhos e outras lesões não perceptíveis externamente.
A perita destaca que um dos principais desafios é diferenciar lesões provocadas por violência de alterações decorrentes das altas temperaturas. “O fogo pode provocar fraturas, retração de tecidos e outras modificações que podem parecer traumáticas. Por isso, esses achados precisam ser interpretados por profissionais especializados e sempre em conjunto com os demais elementos da investigação.”
A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de São João da Boa Vista conduz o inquérito e solicitou exames periciais, incluindo a necropsia. A investigação também prevê a análise de imagens e depoimentos de testemunhas para reconstruir os acontecimentos.
Para a médica, os resultados periciais são indispensáveis antes de qualquer conclusão sobre a dinâmica da morte. “No caso divulgado, esses resultados ainda não foram tornados públicos. Portanto, não é possível afirmar se a vítima estava viva ou não quando o veículo começou a queimar”, conclui Daitx.
Fonte: Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.
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