Um agente penitenciário cuida de até 700 presos em São Paulo
Relatório feito pela Defensoria Pública revela
falta de médico em metade das 69 unidades prisionais vistoriadas
O depoimento
de uma mulher que perdeu o marido dentro do sistema penitenciário paulista
emocionou o auditório de uma sessão especial da Assembleia Legislativa de São
Paulo (Alesp). Ela contou que o companheiro teve uma úlcera perfurada e morreu
sem atendimento médico no Centro de Detenção Provisória de São Bernardo do
Campo. O relato é confirmado por documento da Defensoria Pública de São Paulo
que aponta a falta de médicos em metade (48%) das 69 unidades visitadas durante
a pandemia.
O relatório da
entidade revelou que a superlotação é realidade de 84% das unidades do Estado.
A Defensoria identificou 1.395 detentos com doenças graves sem nenhuma
assistência à saúde.
O presidente do Sindicato dos Funcionários
do Sistema Prisional de São Paulo (SIFUSPESP), Fábio Jabá,
confirma que a falta de atendimento de saúde é comum nos presídios paulistas. “Às vezes um preso precisa de um médico,
mas simplesmente não tem. O sistema não oferece. E são os agentes
penitenciários que precisam dizer isso a eles. Todos somos vítimas dessa
precarização do sistema: os servidores estão cada vez mais sobrecarregados e
doentes também”, disse Jabá.
Segundo o
dirigente sindical, esses problemas são agravados pela falta de servidores, o
que impede uma política real de ressocialização dos detentos e afeta todas as
áreas da segurança pública. O déficit de quase metade do efetivo cria situações
em que centenas de presos ficam sob responsabilidade de poucos servidores. “Há situações de unidades em que um
único agente precisa cuidar de 700 detentos”, comenta o
sindicalista.
Desde 2014,
4.100 pessoas aprovadas em concurso para Agente de Escolta e Vigilância
Penitenciária (AEVP) aguardam a convocação. “Apenas a contratação desses AEVPs já liberaria 6 mil PMs,
que ainda trabalham na escolta de presos no interior e deveriam estar no
patrulhamento das ruas”, ressalta o dirigente.
A falta de
servidores afeta a segurança e a própria operação da unidade. “Em alguns locais, a última refeição dos
presos é às 16h e depois, só no dia seguinte, às 8h da manhã. Isso acontece
porque, no plantão noturno, nem sempre há funcionários para controlar a
distribuição das refeições”, revela.
Pandemia
O
relatório da Defensoria aponta ainda que três em cada quatro unidades vistoriadas
(74%) tiveram casos de internação por Covid durante a pandemia. A população
carcerária ficou no fim da fila da vacinação. O resultado foi trágico tanto
para os presos, quanto para os servidores das unidades. “O SIFUSPESP foi à Justiça para obrigar
a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) a fornecer equipamentos de
proteção individual (EPIs) e vacinas para todos. Mesmo assim, 125 companheiros
de sistema morreram, além de 86 sentenciados, todos vítimas confirmadas da
Covid. Sem a ação do Sindicato, talvez muitos outros mais tivessem morrido”,
ponderou.
Audiência Pública
Entidades
de direitos humanos e de familiares de presos presentes ao debate se
comprometeram em fazer um documento único com todas as reivindicações, que será
enviado à SAP. O Governo de São Paulo não mandou representantes para participar
do evento na Alesp.
Fábio Jabá é presidente do SIFUSPESP
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